O sistema e o protocolo

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  • Post last modified:28 de fevereiro de 2021

Quantas vezes você foi tentar resolver alguma coisa num banco ou numa “repartição pública” e saiu de lá frustrado (para não usar um termo mais popular que, no passado, já foi proibido nas telas de tv) ao ser informado que não seria possível porque “o sistema caiu”?

No caso particular da “repartição pública” é preciso, em primeiro lugar, que ela esteja funcionando, senão você nem saberá se o sistema caiu ou não.

Talvez saia de lá com o “nariz quebrado” ao bater com ele na porta fechada!

Voltando ao sistema, às vezes, ELE não cai, mas fica lento o que é quase a mesma coisa.

A vantagem do sistema lento é que enquanto você espera na fila única, até desistir, dava para conversar com os “colegas de fila”, isso antes da pandemia e falar de várias coisas com aquela parte do corpo que os antigos usavam para se comunicar uns com os outros até a invenção do whats app: – a boca.

Os assuntos na fila podem ser os mais diversos e imagináveis possíveis, desde as cenas da novela atual, , os besteirol do BBB, as vaciladas dos jogadores de futebol na última partida ou falar mal do governo (qualquer um).

Estes dois últimos temas, futebol e em particular, a política (velha ou nova) não são muito recomendados nestes tempos de “polarização” onde todo mundo tem razão com tanto que seja uma “razão” igual a nossa.

Melhor falar dos preços no supermercado que estão “pela hora da morte” que, oxalá, tomara, um dia, o “sistema ekonômico” resolva.

Depois de uma hora aguardando na “bicha”, como dizem os portugueses, ou você desiste ou algum funcionário “autorizado” grita lá dentro: – gente agora deu ruim mesmo, o sistema caiu de vez e a única previsão que existe é que deve cair um temporal “daqueles” daqui a pouco.

Como você não é “um sistema” (ainda) fica bem acelerado e sai correndo antes que a previsão meteorológica do funcionário autorizado (em sistemas) se confirme e as letras “ua” da palavra “ruas” sejam trocadas por “io”.

Uma mera questão de “vogais”, que estarão na hora errada, no local errado, como diz o clichê.

A sua experiência, de “chuvas passadas”, lhe diz que se isso acontecer você só conseguirá voltar para casa com auxílio de um bote do corpo de bombeiros.

Enquanto os bombeiros, ocupadíssimos, não chegam só resta rezar (valha-me Santa Bárbara e São Jerônimo), porque “a fé não costuma falhar”, como disse Gilberto Gil em sua canção. Torça para que sua casa na “comunidade”, construída irregularmente como alegam as autoridades do “poder público”, não tenha virado um “sistema” e caído junto com o temporal que fez chover 150mm em uma hora como dizem os repórteres da tv, especializados em questões climáticas.

E como era antes do “sistema”?

Lembro-me quando eu era criança, e lá já se vão uns bons anos, da minha “caderneta de poupança” da Caixa Econômica Federal.

Naquela época, quase todo pai, mesmo da “classe trabalhadora” e humilde, abria uma conta na Caixa quando o filho ou filha nascia e todo mês depositava nela um dinheirinho que o(a) “beneficiário(a)” e somente ele(a) poderia sacar ao completar quando fosse “de maior”: – 18 anos.

Quando eu já tinha uns 8 ou 10 anos e já sabia ler, fazer “conta de mais e de menos”, às vezes, meu pai me levava com ele à agência da Caixa que ficava no Largo do Machado, ao lado do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, onde hoje tem uma papelaria.

Talvez, sem perceber, ele estava me preparando para questões práticas da vida e, naquela época, aprender a usar o banco (e não, ser usado pelo banco, como hoje), era uma delas.

Chegávamos na agência onde não havia nem segurança nos aguardando para nos dar “boas-vindas” com uma arma na cintura, nem tão pouco portas giratórias falantes que anunciavam – o “sistema” detectou objetos de metal e blá, blá, blá.

Dirigíamo-nos a um balcão enorme onde algum funcionário, geralmente, homem vestido com camisa social impecavelmente branca e gravata, pegava a caderneta das mãos do meu pai olhava algumas informações e se dirigia a algum gaveteiro de metal atrás dele.

Após poucos minutos de buscas, voltava o funcionário  com uma ficha de cartolina na mão onde estavam anotadas as mesmas informações da caderneta e dentre elas, três colunas – crédito, débito e saldo.

O funcionário pegava o dinheiro, contava e colocava numa gaveta no balcão. Em seguida anotava, com caneta tinteiro, o valor depositado na coluna crédito da ficha e da caderneta o valor depositado que fora entregue por meu pai, bem como o novo saldo calculado em uma calculadora mecânica enorme que ficava ao seu lado no balcão.

Pronto, simples assim. O “sistema” não ficava lento, nem caia.

Eu voltava para casa com meu pai me segurando pela mão, talvez sonhando com o dia que completaria 18 anos, seria “de maior”, e poderia, se quisesse, sacar aquela bolada.

Aí, um dia, muitos anos depois, vieram os computadores que, incialmente, eram chamados de “cérebro eletrônico”.

Não estes computadores que temos meia dúzia deles em nossas casas, um para cada membro da família ou carregamos no bolso embutidos em um celular smartphone Androide ou IOS.

Eles eram enormes, ficavam em “lugares especiais” e eram operados por pessoas (homens) vestidas de branco como se fossem médicos ou cientistas.

Era a promessa de um mundo melhor, mais democrático e do “primeiro mundo”, mas os “cérebros eletrônicos” ainda não eram “o sistema”, não tinham inteligência artificial e não controlavam nossos pensamentos e hábitos de consumo, enfim, toda a nossa vida.

“Evoluíram” mais depressa que o sapiens que os criaram com sua “Inteligência natural” e lhe deram uma “inteligência artificial”.

Será a Criatura dominando o Criador ou seria o Feitiço se virando contra o Feiticeiro?

Mas “o sistema” está aí, cada vez mais, “a serviço do homem” (ou contra ele). Uma mera questão de ponto de vista, interpretação ou quem sabe, saudosismo de minha parte.

Diz o clichê que se não pudermos lutar contra um inimigo poderoso o jeito é nos aliarmos a ele.

Ou seria – melhor um covarde vivo que um herói morto?

Estaremos nos transformando em covardes vivos aceitando “o sistema” com sua “inteligência artificial”, ainda controlada e criada pela “inteligência natural” do sapiens, que vai criando os robozinhos e as robozinhas para nos mandar mensagens no celular ou atender nossas demandas quando ligamos para as empresas?

Esses dias ao assistir a série Onisciente da Netflix lembrei-me do filme Minority Report que assisti em 2002, portanto há exatos 19 anos.

Naquela época achei aquilo “sem pé nem cabeça”, mas hoje a “proposta” da Onisciente, sem dúvida, irá se tornar realidade muito antes que daqui a 19 anos.

Poderia escrever páginas e mais páginas sobre “o sistema”, mas fica para outro dia, preciso falar de outra “invenção”, mais recente, do sapiens – o protocolo.

Se você assistir um noticiário de tv provavelmente a palavra “protocolo” será mencionada, pelo menos uma vez em alguma notícia seja lá sobre o que estejam falando.

É bem possível que em alguma cidadezinha do interior crianças já estejam sendo batizadas com o pomposo nome de “Protocolo da Silva”.

Duvidam? Olha eu aí dando ideia!

Mas, vamos ao que interessa – o que é um protocolo?

Não sei qual é a definição “técnica” para protocolo hoje em dia, mas antes do “sistema” era aquele papelzinho que você recebia numa repartição pública com o número do processo do seu pedido ou reclamação.

Essa conotação ainda é usada. Por exemplo, quando você liga para sua operadora de celular para reclamar do péssimo serviço que estão lhe prestando ou do “absurdo” do valor cobrado, a primeira coisa que a atendente (quase humana ou robô) lhe diz é que “para sua segurança a conversa está sendo gravada” (segurança sua ou deles?)

A seguir lhe pedem para anotar o “número do protocolo” e você terá a chance de ouvir de novo, caso queira, digitando o número “x” no seu telefone.

Esquecem de avisar que você precisa ter um bom estoque de canetas “BIC” e muitas folhas de papel porque o número é bem grande (e aí, talvez você desista de anotar).

Esse é o protocolo antigo, pré sistema.

Eu quero falar do protocolo moderno, pós sistema.

Eu definiria o protocolo pós sistema assim:

– Conjunto de regras escritas por alguém ou um grupo de pessoas para automatizar a execução de tarefas humanas e torná-las padronizadas para que todos façam sempre do mesmo jeito e sem pensar (inclusive os robôs).

Em outras palavras – manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Pode ser também – fiz o que mandaram fazer, se deu ruim a culpa não é minha, é do protocolo.

Que tal – sou pago para fazer e não para pensar?

Pensando bem (enquanto ainda é permitido, mais ou menos, pelo sistema) o “protocolo” é filho do “sistema” ou quem sabe da “Inteligência artificial” tentando substituir de vez a “inteligência natural” que dá (ou dava) ao sapiens a capacidade de pensar.

Queiramos ou não o sistema e o “novo” protocolo estão aí e não vai adiantar muito querer nos revoltarmos contra eles. Então, o jeito é nos acostumarmos com está revolução silenciosa que cada dia penetra mais em nossas vidas e privacidade mesmo que não percebamos.

George Orwell profetizou, de alguma forma, este mundo de hoje em 1949 em seu livro famoso 1984.

Acho que tive contato com livro de Orwell lá pelos anos 70, um pouco depois de ler O admirável mundo novo de Aldous Huxley e, embora não percebesse como aquelas ideias seriam materializadas no futuro, eu já pressentia que pouco a pouco estávamos caminhando para o mundo distópico em que vivemos hoje e tenha aceitado, em parte, a me aliar ao inimigo para não ser um herói morto.

Se quiser comentar este texto você será respondido, por um humano (ainda), eu mesmo.

Ah! Não precisa anotar o número do protocolo!

Este post tem 4 comentários

  1. Mestre Brites, Parabéns pelo site/ blog
    As coisas (des)caminham assim, boa recordação você me trouxe da caderneta de poupança…meu irmão mais velho tinha quando entrou no primeiro emprego.
    Protocolo primordialmente neste projeto de país do futuro como disse o premio Nobel outro dia…era que você mencionou mesmo, alguns não eram validos se não tivesse o carimbo!
    Hoje protocolo se estendeu a ritos que devem ser seguidos… o pior deles é a ISO9001. Onde trabalho as vezes caímos em loop caso o documento não mencione um passo ou dite uma característica. Eu sou tecnico em eletrônica e mecânica…e embora tenha algum conhecimento para dizer pode ser feito desta forma, sou obrigado a enfrentar reuniões para seguir protocolos estabelecidos . O engraçado a primeira pergunta e
    respectiva resposta já solciona o problema. Mas ficamos mais um tempo na sala para procurar causa raiz que protocolo pede.
    Obrigado por mais este site! Parabéns

    1. Paulo Brites

      Muito obrigado Claudio por compartilhar suas agruras “protocolescas” comigo.
      O que “protocolo” de hoje quer garantir é que “se o problema não é contigo, também não é comigo”.
      Simples assim!
      Abraços e até sempre!

  2. Henrique Grizotti

    “o “protocolo” é filho do “sistema” ou quem sabe da “Inteligência artificial” tentando substituir de vez a “inteligência natural” que dá (ou dava) ao sapiens a capacidade de pensar.”
    Adorei, falou tudo em uma única frase.

    Ahhh, eu tenho um caderno universitário de 96 páginas ao lado do meu telefone com todos os números dos protocolos.
    Pensando bem, preciso providenciar outro, as páginas estão acabando………

    1. Paulo Brites

      É mesmo vai precisar de um caderno maior depois do 5G

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