Meu primeiro encontro com a Filosofia

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  • Post last modified:15 de fevereiro de 2021

O meu primeiro encontro com a Filosofia foi através de Heráclito e devo confessar que naquela época, 1966, eu nem sabia muito bem o que era Filosofia.

Não que hoje eu saiba exatamente o que é Filosofia, mas pelo menos agora tenho algumas “pistas”.

Quando eu comecei a cursar o equivalente ao que hoje se chama de Nível Médio o estudante podia escolher entre dois “tipos” de curso: – Científico ou Clássico.

Em linhas gerais, o Científico se destinava àqueles que pretendiam fazer um Curso Superior na área das “exatas”, enquanto o Clássico ficava para a turma das “humanas”.

Parece até que a maioria dos estudantes de 15 anos já tem clareza do que vai “querer ser quando crescer”.

A turma do Clássico tinha aulas de Filosofia e como eu já tinha muito claro (será?) em minha mente o que “queria ser”  [Engenheiro Eletrônico] fui alijado da possibilidade de estudar um mínimo de assuntos que hoje considero de vital importância para um “sapiens civilizado” tais como Filosofia, História, Sociologia, sem deixar de incluir, também, nesta lista, as diversas manifestações das Artes.

Óbvio que meu encontro com Heráclito não foi cara a cara, nem poderia ser porque ele nasceu lá pelo ano 530a.C e eu ainda não era nem projeto de homo sapiens.

Foi um encontro, digamos, um tanto transversal, “patrocinado” por Bento de Jesus Caraça, autor português de vários livros de Matemática e, dentre eles, um que coloco no pedestal dos melhores que já li – Princípios Fundamentais da Matemática.

Como disse lá no início, o ano foi 1966 e quem me “apresentou” ao mestre português foi meu professor de Matemática do segundo ano do Curso Técnico de Eletrônica: – Paulo Baptista de Oliveira, o PBO.

Posso contar nos dedos, de uma só mão, os bons mestres de Matemática (e de outras disciplinas também) que tive pela vida e o PBO está em um dos dedos desta mão.

Estava eu assistindo atentamente uma das primeiras aulas do PBO e “me achava” muito sabedor de Matemática.

Era uma aula expositiva onde ele fazia uma introdução ao complicado conceito de números reais e, de repente travei um pequeno “diálogo/atrito” com aquele mestre.

Sua exposição era firme, falava de improviso sem recorrer a anotações. Tinha tudo muito claro e sua cabeça.

No auge dos meus 21 anos, talvez ou certamente, querendo “aparecer” na sala de aula como um aluno “mais velho” numa turma de garotos recém saídos do ginásio, levantei o dedo e me meti na exposição com minhas considerações.

PBO, assim como um bom artesão que pressente que tem em mãos uma pedra que precisa ser lapidada, lançou um desafio àquele aluno que parecia estar à espera do artesão que o lapidasse e o transformaria mais tarde também em um professor.

Disse ele: – Faça um texto sobre números reais e me traga no dia X.

Ao que, vagamente, me lembro, X não era um prazo muito rígido para a entrega, mas certamente não poderia ser Y.  

Não perguntei se “valeria nota”. O que me interessava não eram, apenas, alguns pontos a mais no boletim escolar e sim, mostrar que seria capaz de vencer o desafio e “aprender cada vez mais”.

Sugeriu-me como referência o livro que mencionei acima – Princípios Fundamentais da Matemática de Bento de Jesus Caraça.

Comprei-o no dia 25 de março de 1966 (tenho a data anotada no livro).

Não conseguia de parar de ler. Agora sim, eu estava começando a aprender Matemática. O que “sabichão” que achava que sabia muita matemática, até então, o que sabia era usar receitas de bolo para passar no Vestibular. Nada a ver com Matemática na sua mais bela e pura essência.

Que fique claro que não estou desmerecendo a necessidade de aprender “a fazer bolo” seguindo as receitas, mas parafraseando os versos de Arnaldo Antunes, “algumas pessoas não querem só comida” e eu era uma destas pessoas.

Assim, no dia 30 de março de 1966, estavam prontas as três páginas datilografas, com o título:- Número Real – Conceito e Evolução, que foram entregues àquele mestre que foi o divisor de águas na minha vida profissional.

Aquele menino que lá pelos 15 anos sonhara com um Curso de Engenharia Eletrônica no IME e, “por sorte”, tinha sucumbido no vestibular de janeiro de 1965, começava a encontrar agora um novo e definitivo rumo para sua vida profissional naquele Curso Técnico de Eletrônica.

Realmente, pensando bem, aquele estudante de 15 anos, parece que não tinha assim tão claro em sua mente que “queria ser” um Engenheiro Eletrônico formado pelo IME.

O insucesso no vestibular do IME era um fato consumado e não dava mais para olhar para trás.

Nunca se passa pelo caminho duas vezes da mesma forma porque os dois, você e o caminho, não são mais os mesmos.

Se você continuar a ler irá descobrir como Heráclito parecia ter alguma razão nos seus “princípios” filosóficos.

Voltando ao trabalho escolar que o PBO me passara o que posso dizer, é que o texto que eu produzi era bem tosco e hoje jamais escreveria daquela forma, mas era o início e a essência do que devia ser dito estava lá de alguma forma.

PBO, mais do que meu professor de Matemática, se tornou meu tutor, mal comparando, naquele estilo da “educação’ da Grécia Antiga.

Nas nossas conversas que iam ocorrendo fora da sala de aula, nos corredores da escola, no cafezinho no bar ao lado e mais tarde em sua casa eu ia sendo “preparado” para assumir um papel na profissão mais importante do mundo – professor.

E o Heráclito, onde entra nesta “abobrinha filosófica”?

Como eu disse, meu primeiro encontro com a Filosofia foi através de Heráclito e ele entra nesta “abobrinha” pelo Capítulo IV do livro do Caraça e foi em 1966.

Lá pela página 67 da edição de 1963, Caraça escreve:

    … Enquanto para os filósofos jônicos (que o precederam), a explicação se baseia numa substância primordial, permanente, para Heráclito, o aspecto essencial da realidade é a transformação.

      O mundo dos filósofos de Mileto era um mundo de permanência da matéria. O mundo de Heráclito era o mundo dinâmico, da transformação incessante, do devir.

Heráclito resume todo este pensamento de uma maneira simples:

“tu não podes descer duas vezes o mesmo rio, porque novas águas correm sobre ti”.

Como uma onda

Em 1987 começava a tocar nas rádios uma nova canção de Lulu Santos e Nelson Motta – Como uma onda

Gosto de prestar atenção atentamente em cada verso sempre que ouço uma música.

Como uma onda, sempre me deu a sensação de que seus versos remetiam a filosofia de Heráclito.

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há
um segundo
tudo muda o tempo todo no
mundo

Fico sempre a me perguntar se eles tinham consciência da “presença” de Heráclito em cada verso ou naquela Filosofia de alguém que viveu em 530a.C lá na Grécia está impregnada pelo mundo?

Gostaria de poder perguntar isso a eles.

E foi assim, meu primeiro encontro com a Filosofia, que naquele ano de 1966 e que eu nem sabia bem o que era mas, pouco a pouco, fui descobrindo que “nada será do jeito que já foi um dia”.

Ainda bem, pois só assim “não vivo a mentir para mim mesmo” e percebo que “há muita vida lá fora”.

Até os vírus parecem, de certa forma, serem heraclitianos e vivem mudando suas estruturas genéticas pois, “percebem” que “, o aspecto essencial da realidade é a transformação”.

Lembrando Paulinho da Viola, o sonho de, “um dia”, ser Engenheiro Eletrônico, “foi um rio que passou em minha vida”, mas não me faz nem um pouco frustrado por isso, porque tenho certeza de que não poderia voltar a navegar nas águas daquele rio porque elas “já passaram” e não são mais as mesmas.

Talvez esta seja a essência da Filosofia, para usar um clichê atual, “nos fazer pensar fora da caixa” e portanto, a importância de ser “mostrada” à garotada nas escolas.

Mais ou tão importante que saber resolver equações matemáticas com as “receitas de bolo” é saber resolver as “equações” que a vida vai nos propondo a todo momento e que possamos perceber que quando pensamos que sabemos todas as repostas, todas as perguntas já são outras.

Como disseram os sambista Monsueto Menezes e Arnaldo Passos

               “Mora na Filosofia, pra que rimar amor e dor”!

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Este post tem 2 comentários

  1. Ronaldo

    Parabéns Prof. Paulo Brites. Excelente texto. Sempre me falaram que no âmago de um competente técnico existe um ser com uma veia poética sensível e afiada.

    1. Paulo Brites

      É um somatório (já que estamos a falar de matemática) de coisas.

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