Existem pessoas que morrem na hora certa, outras não

Antes que me “cancelem”, por conta deste título deem-me, por favor, o “sagrado direito de defesa” como dizem os garantistas jurídicos e deixem que eu tente explicar a  minha “teoria”.

Para mim, um caso emblemático desta minha estranha teoria/abobrinha é a “passagem” de Tim Maia, em 15 de março de 1998, quando o vozeirão nos deixou.

Por que digo isso?

Até as pedras da rua sabem que ele era chegado a “queimar uma erva”, mas ao que me consta não morreu por conta de um câncer no pulmão nem atropelou dez pessoas na calçada dirigindo um carro desgovernado porque estava embriagado pela bebida comprada “legalmente”.

Até aquela época, basicamente, só os traficantes traficavam, se é que me entendem, e ele não tinha grandes dificuldades em conseguir o “IFA” para fabricar seus próprios cigarrinhos pretos sem precisar pagar impostos para comprar, nos botecos, os brancos de marca, em embalagens bonitas.

Se fosse hoje ele teria que cantar “me dê motivos pra me prender” em vez de “para ir embora”!

Em Azul da Cor do Mar parece que profetizava os dias atuais do nosso Brasil desgovernado quando diz “E na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer enquanto o outro ri”.

Pois é, o “outro” ri, enquanto mais de 318 mil pessoas já morreram antes da hora, pela “bala” invisível, mas previsível e, às vezes, evitável, do Coronavírus.

Todo este preâmbulo é para falar que dia 31 de março, portanto hoje, completará dez anos que minha mãe, aos 92 bem vividos, partiu dessa para melhor.

Sim, eu digo que partiu dessa para melhor, porque como Elis Regina e Rita Lee já avisavam aos marcianos em 1980, 40 anos antes do robô Perseverance da Nasa chegar à Marte,

Você não imagina a loucura,

o ser humano tá na maior fissura,

porque tá cada vez mais down no high societey.

Fico imaginando como seria nos dias atuais, sem que minha mãe pudesse caminhar devagar com sua bengala e ir até a Praça São Salvador, encontrar com a turma da melhor idade que “batia o ponto” ali todas as manhãs para tomar sol, aprender e também ensinar suas inesquecíveis receitas de bolos, empadas e tudo que mais que nos dá água na boca só em pensar.

Teria que ficar em “prisão domiciliar”, não pelas “propinas” que nunca recebeu porque nunca fez parte da Política, nem velha nem nova, mas pela COVID-19 que ainda não tinha aparecido pelo mundo.

Suas amarguras de final da vida duraram cerca de duas semanas num leito de hospital bem assistida e com acompanhantes familiares que se revezavam dia e noite.

Complicações foram surgindo porque os remédios que curam, às vezes, também matam.

Mas, tinha algo que me preocupava muito mais, mesmo que ela conseguisse sair dali.

Estava a ponto de perder uma das pernas ou, quiçá as duas, por conta de um severo “entupimento” da artéria femoral que quase não irrigava mais sangue para os membros inferiores.

Isto seria uma tortura muito grande para uma pessoa, que mesmo aos 92 anos, era independente para cuidar de si e até dos outros.

Por isso, eu digo que partiu na hora certa, não dava mais para “forçar a barra”.

Não podemos ser egoístas e querer ter alguém ao nosso lado que já não pode mais fazer o que gosta por conta de suas limitações físicas.

Alguém que, embora de olhos abertos e coração batendo, precisa que outros lhe cuidem quando o que mais amava na vida era cuidar dos outros.

Há exatos 10 anos, num fim de noite, se libertou das amarras da maca da UTI, dos tubos da hemodiálise, das sondas nasogástricas, do coma induzido para que não sofresse “conscientemente”.

Sofriam por ela filho, nora, netos e até uma “sobrinha” que não era de sangue mas, era de coração.

Não dá para entender que “um ri enquanto o outro sofre”, meu caro Tim Maia.

Muito menos aprender que uns nascem para sofrer e continuam a sofrer enquanto a verdadeira vida escorre pelos leitos das UTIs.

Se morrer é a única certeza da vida que seja na hora certa.

Saudades ficarão, mas como sabiamente disse o poeta Olavo Bilac “a saudade é a presença dos ausentes”.

E assim, na noite de 31 de março de 2011, o sofrimento acabou e ninguém riu.

O sepultamento ocorreu no dia 1° de abril e eu ouso dizer que a “debochada” D. Alexandrina fez isso de propósito para pensarmos até hoje que é mentira e que a “ausente continua presente” nos corações e mentes daqueles que tiveram a oportunidade de comer suas tortas de chocolate cuja receita ela tentava ensinar à enfermeira da UTI nos seus últimos momentos de lucidez.

Morreu na hora certa!

Não nos deixou sós, deixou um pedaço de si, levou um pedaço de nós, como nos ensina o Pequeno Príncipe.

Este post tem 4 comentários

  1. Teresinha Almeida

    Só agora tive tempo com calma para ler o texto. Paulo, vc fez a gente sentir uma sauuddaaddeee da D. Ale. Me emocionei com sua homenagem. Eu já me lembro da divina torta de café dela. Me dê motivo…(pra ficar).

    1. Paulo Brites

      Isto está virando um blog de gastronomia ….

      Isso é ser eterno, deixar um pouco de si e levar um pouco de nós….

  2. Idalva Fernandes

    Ah que bela homenagem e lembrança da Dona Alexandrina, que foi forte até o final. De voz mansa e caminhar lento, mas muito ágil na cozinha, nos encantava com seus quitutes. Até hoje lembro da rabanada da Dona Alexandria e do bolo de Bomba de Chocolate. Excelente texto, Paulo! Incrivelmente muito atual e verdadeiro! Continuemos a buscar razão para viver nesse caos…

    1. Paulo Brites

      Muito obrigado Idalva pela sua homenagem.
      Não consigo fazer rabanadas iguais as dela rsrs

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