Memórias Pré Póstumas de um Canivete Suíço – Capítulo II

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  • Post last modified:20 de março de 2022

Letras e números começam a entrar na minha vida

No capítulo I destas Memórias Pré Póstumas de um Canivete Suíço, que eu chamei de A gênese, eu falo da minha vinda ao mundo e ou meus primeiros anos de vida nele.

Agora começo a tratar dos meus primeiros anos escolares.

Acho que comecei a aprender a ler e escrever lá pelos cinco anos de idade guiado pela minha mãe, mesmo sem que ela tivesse tido uma educação formal “completa”.

Ela foi minha primeira professora não apenas para ensinar, ou melhor, transmitir valores de vida, mas também a me mostrar o mundo das letras e dos números.

Sempre a ouvi se lamentando que não pudera estudar porque precisava trabalhar e, muitas vezes, não podia sair do “serviço” a tempo de chegar à escola.

Poucas, também, não foram as vezes em que a ouvi dizer que para poder pagar a escola economizava os tostões da passagem de bonde indo a pé do “serviço” à escola e findava chegando atrasada.

Não havia vale transporte para estudantes, “dado” pelo governo.

Hoje tem.  Tem mesmo?

Aliás, isso não mudou muito no século XXI.

Quando lecionei para turmas de Jovens e Adultos, tinha uma aluna que sempre vinha se desculpar pelas suas faltas porque não podia sair enquanto não servisse a comida ao patrão e lavasse toda a louça do jantar….

E ainda dizem que a escravidão foi abolida em 1888.

Mas, estas são outras histórias.

Afinal as pré memórias póstumas são deste canivete suíço que “vos fala” (ou escreve).

Eu avisei no capítulo 1 que haveria alguns “abre parêntese” pelo caminho. Este foi mais um deles.

“Fecha parêntese” e voltemos ao meu “letramento ou alfabetização” aos cinco e poucos anos de idade.

Os “materiais didáticos” utilizados por minha mãe eram uma cartilha de papel jornal, um caderno de caligrafia e uma tabuada.

Simples assim!

Aos seis anos ela me matriculou numa escola “particular” perto de casa.

A Escola Senador Correa que ainda existe aqui na Praça São Salvador em Laranjeiras, na “Cidade Maravilhosa”.

Há alguns anos, quase a derrubaram para construir um hospital (particular) em seu lugar.

Houve muitos protestos, pincipalmente dos moradores do bairro, e aí descobriram que o prédio era tombado pelo patrimônio histórico e portanto, não poderia ser demolido.

Por fim, a Prefeitura assumiu e reformou o prédio mantendo a arquitetura da época. Hoje funciona uma Escola Pública no local.

Ainda bem!  Um pedacinho da minha infância ainda “vive” aqui no bairro.

Busco em minha memória de vagas lembranças e tento materializar as feições da professora/diretora da minha primeira escola – D. Maria, com um semblante carrancudo, mas ao mesmo tempo suave e seu comprido guarda-pó branco.

Após o primeiro dia de aula volto para casa frustrado e reclamando muito, segundo sempre ouvi minha mãe dizer.

A D. Maria (ainda não se chamavam as professoras de “tia”) queria me ensinar o que “eu já sabia”.

Deve ter havido uma conversinha entre minha mãe e a professora/diretora que fez o ritmo das aulas “subirem de nível” principalmente na “matemática”.

Naqueles tempos usavam-se dois cadernos: – um de linha dupla para “linguagem” ou escrita e outro de “quadradinhos” para os números.

D. Maria passava um “dever de casa” que eu adorava fazer.

Eram várias “contas de mais” com números que preenchiam todos os quadradinhos de duas linhas do caderno.

Mas tinha uma coisa que me intrigava. Descobrir qual seria o “último número”.

Pedi um caderno de quadradinhos para meu avô e comecei a escrever a sequência numérica.

Não lembro mais se cheguei à última página do caderno ou desisti antes de chegar ao “último número”.

Os números governam o mundo, como dizem que Platão ou Pitágoras teria dito.

Não importa quem disse, o fato é que governam mesmo.

A mim governam até hoje, inclusive na conta bancária cuja “governança platônica” me ajudou a descobrir que existem uns tais de “números negativos” que quanto maior, menos valem (exceto para os banqueiros calcularem os juros).

Foram poucos meses na Senador Correa. Naquela época as crianças só podiam ir para a escola com sete anos completos eu tinha seis e um pouquinho.

Parece que a diretora/professora “mancomunada” com minha mãe fez um “ajuste” na minha idade e permitiu que eu entrasse.

Revendo meus boletins escolares concluo que a “passagem” por aquela escola não valeu oficialmente pois, não encontrei nos guardados de minha mãe nenhum documento de lá.

Digo isto porque em 1952, já com sete anos, fui matriculado no Instituto Paissandu para cursar a 1ª série primária mas, lá só permaneci até o meio daquele ano, segundo consta no boletim.

O fato é que no ano seguinte, 1953, fui para o Colégio Parisiense, onde fiquei até 1954, cursando a 2ª e 3ª série primária.

Naqueles tempos conseguir uma vaga em escolas públicas era um privilégio.

Meu pai que trabalhava com meu avô na Casa Luz conseguiu um “pistolão” (era assim que se dizia na época) com uma freguesa (ainda não eram clientes) que tinha “bons contatos” políticos para me matricular na Escola (pública) José de Alencar em 1955.

Lá cursei a 4ª serie primária em 1955 e a “5ª”, em 1956, também denominada “admissão”.

Hoje percebo a diferença de “nível” entre o ensinamento daquelas escolinhas particulares para o da escola pública.

Lembro-me até hoje do nome da minha professora naqueles dois anos que passei na José de Alencar – Dona Maria Eugênia.

Aqueles dois anos no José de Alencar foram o divisor de águas de toda a minha formação estudantil.

Para quem não é daqueles tempos cabe explicar por que coloquei 5ª série entre aspas.

O “curso primário” só tinha quatro séries, sendo que a 5ª era um preparatório para prestar prova de “admissão” para ginásios públicos.

Que eu me lembre, haviam poucas escolas públicas perto de onde eu morava.

Uma delas era o Colégio Amaro Cavalcanti no Largo da Machado e era uma espécie de “escola profissionalizante” com cursos voltados para a área comercial.

Minha mãe ficou sabendo que haveria uma prova de admissão exatamente no dia em que a prova ocorreria e me levou correndo do José de Alencar para o Amaro, tendo passado rapidamente em casa, que era perto, para que eu comesse alguma coisa.

Não passei, é claro e hoje eu digo – ainda bem!

Inconscientemente creio que eu já sabia que aquelas coisas de “contabilidade” não eram o que eu gostaria de estudar para que viessem a se transformar no meu “ganha pão” no futuro.

Mesmo antes dos 10 anos eu já me sentia atraído por assuntos ligados à eletricidade e fazia alguns “experimentos” práticos com ela. Estava inconscientemente, repito, traçando um dos meus caminhos profissionais que viriam a ser no futuro o meu principal “meio de vida”.

Futuro aquele, dos meus 10 anos de idade, que está presente na minha vida até hoje.

Foi naquela escola que meu lado “escritor” começou a se desenvolver “profissionalmente”.

Abro aqui mais um parêntese para explicar essa história.

A escola “editava” um jornal bimestral, O ECO, que era produzido pelos alunos, datilografado certamente por alguma professora ou secretária e mimeografado.

Tenho três exemplares do meu tempo guardados até hoje.

Olhando o expediente do jornal adivinhe quem estava lá como redator nos exemplares do Ano VII em 1955?

Não preciso dizer que era Paulo Roberto Brites da Luz.

Eu disse que foi no José de Alencar que meu lado escritor começou a surgir profissionalmente, porque eu já havia tentado uma experiência mais amadorística um pouco antes.

Eu deveria andar pelo sete ou oito anos quando tive a ideia de fazer uma revistinha de curiosidades. Era “editada” a mão apenas um exemplar que, ao que me lembro, não passou do ano I, número 1.

Infelizmente este material se perdeu, mas eu ainda tenho na memória como ele era feito.

Folhas de papel branco com recortes de tirinhas de jornal coladas, alguns desenhos feitos a mão por mim e os “textos” também escritos a mão por mim mesmo.

O conjunto com “meia dúzia” de folhas era “encadernado” com uma capa de cartolina como uma revista.

Os leitores, ou melhor, leitoras, eram algumas amigas da minha mãe que depois de ler “as matérias” deixavam seus comentários.

A melhor parte era o “retorno financeiro”. Não lembro se eu “cobrava” ou eram doações, o fato que algum dinheirinho eu ganhei.

Por alguma razão, que não lembro qual, o “empreendimento” não foi adiante mas, o importante é que a semente tinha sido plantada.

É possível que os “estudos” tenham começado a apertar e não sobrasse mais tempo para continuar minha precoce carreira de editor jornalístico.

Fecho este parêntese para falar do que aconteceu ao terminar o “admissão” e não ter passado na prova do Amaro.

E agora D. Alexandrina e Seu Jorge, onde aquele garoto iria continuar a estudar, para ser “alguém na vida”?

Ao que parece o “pistolão” que ajudara meu pai a me levar para o José de Alencar, não estava mais disponível ou não podia fazer nada talvez por conta de alguma “mudança política”.

Não faço ideia, só sei que restava procurar uma escola particular para o filho cuja mensalidade fosse compatível com o salário que meu pai recebia do meu avô trabalhando na loja dele.

Mas, isso fica para o capítulo III destas pré memórias póstumas do canivete suíço.

 

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